Equipe usou espaço de fala antes de exibição para protestar com fita preta na boca. Longa protagonizado por mulher trans também rodou no telão.

A equipe do curta-metragem “Escola sem sentido“, de Thiago Foresti, usou o espaço de fala durante a abertura da Mostra Brasília, nesta segunda-feira (25), para protestar contra a censura. Cerca de 20 pessoas que participaram do filme subiram ao palco de bocas vendadas com fita preta.

Durante aproximadamente dois minutos, a equipe permaneceu calada e foi aplaudida pela plateia. Uma das mulheres no palco carregava, ainda, a bandeira Wiphala, dos povos originários andinos – que se tornou um símbolo oficial na Bolívia no primeiro mandato do presidente Evo Morales.

O filme abriu a disputa dos títulos brasilienses na 52ª edição do Festival de Cinema de Brasília, e mergulha na crise vivenciada por um professor de história acusado de “doutrinação ideológica” por pais de alunos.

Crítica direta ao projeto de lei “Escola sem partido”, o curta trata a sala de aula como espaço de liberdade de pensamento e de expressão. “É um espaço para discussão, para os alunos divergirem e entenderem o mundo. Na verdade, a proposta de uma escola sem partido é sem o partido dos outros”.

“Não existe neutralidade na educação, todo mundo tem uma base ideológica. O capitalismo mesmo é uma.”

Cena do curta-metragem "Escola sem sentido" (2018), de Thiago Foresti — Foto: Reprodução
Cena do curta-metragem “Escola sem sentido” (2018), de Thiago Foresti — Foto: Reprodução

Ao longo do filme, uma professora alemã aparece para explicar o que acontece nas cenas – como uma espécie de comentarista. “Ela quebra a quarta parede e conversa com o espectador. É uma personagem que já viveu isso e aparece pra fazer um alerta.”

Equipe do curta-metragem "Escola sem sentido" faz protesto silencioso antes da exibição do filme na Mostra Brasília do 52º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro — Foto: Mayangdi Inzaulgarat/Divulgação
Equipe do curta-metragem “Escola sem sentido” faz protesto silencioso antes da exibição do filme na Mostra Brasília do 52º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro — Foto: Mayangdi Inzaulgarat/Divulgação

Segundo o diretor, assim como o protesto desta noite, o filme é “um recado bem claro para as forças que estão no poder hoje de que nós não vamos nos calar”. Sem patrocínio governamental, o curta é mais um exemplo do cinema de resistência – como são os filmes da carioca Sabrina Fidalgo, selecionada para o festival.

“Eles podem tirar todo o nosso dinheiro, mas nunca a nossa vontade de produzir.”

Maternidade ‘nua e crua’

Cena do longa-metragem "Mãe", de Adriana Vasconcelos — Foto: Divulgação
Cena do longa-metragem “Mãe”, de Adriana Vasconcelos — Foto: Divulgação

Após a exibição de “Escola sem sentido”, o público assistiu ao longa-metragem “Mãe“, de Adriana Vasconcelos. Protagonizado por Ana Cecília Costa, o filme aborda a maternidade por uma perspectiva “nada romântica”, segundo a diretora.

“Nem toda mulher deveria ser mãe, e muitas que são não deveriam ter sido”, disse ao G1. “Então, peguei uma família com três mulheres e mostrei como cada uma se comportava. Uma queria ser uma boa mãe, mas não conseguia Uma tinha tudo para ser péssima, mas era ótima. Uma foi mãe da neta.”

Cena do longa-metragem "Mãe", de Adriana Vaconcelos — Foto: Divulgação
Cena do longa-metragem “Mãe”, de Adriana Vaconcelos — Foto: Divulgação

Diferente do filme de Thiago Foresti, o longa de Adriana contou com apoio financeiro do governo e da iniciativa privada para custear os gastos da produção. Mesmo assim (e justamente por isso), a diretora se diz uma grande defensora dos mecanismos de fomento.

“Acho fundamental, porque a gente tem que pensar nos projetos alternativos, que podem até não lotar os cinemas, mas que vai ter uma história de vida que vai durar décadas. Eu me formei estudando filmes de 40 anos antes de mim.”

Diretora Adriana Vasconcelos, do longa-metrage "Mãe", selecionado para a Mostra Brasília do 52º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro  — Foto:  Mayangdi Inzaulgarat/Divulgação
Diretora Adriana Vasconcelos, do longa-metrage “Mãe”, selecionado para a Mostra Brasília do 52º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro — Foto: Mayangdi Inzaulgarat/Divulgação

Ela também se posicionou contra “todo tipo de censura”. “Eu acho que se deve falar o que se quer. Não se deve censurar nada, seja de qualquer lado”, disse.

TRANSformando

Na Mostra Competitiva, de disputa nacional, o longa da noite foi “Alice Júnior”, do paranaense Gil Baroni. O filme conta a história de uma adolescente trans que sonha com o primeiro beijo.

Cena do longa-metragem "Aline Júnior", do paranaense Gil Baroni  — Foto:  Beija Flor Filmes/Divulgação
Cena do longa-metragem “Aline Júnior”, do paranaense Gil Baroni — Foto: Beija Flor Filmes/Divulgação

De forma leve e descontraída, Baroni e Anne Celestino – que interpreta a personagem – abordam questões de gênero, identidade, respeito, amizade, relações familiares e a quebra de preconceitos.

“Depois de muito desenvolver o roteiro com o Luiz Bertazzo, fomos escrever a história com a Anne”, disse o diretor ao G1. “O roteiro foi transmutando a partir das experiências da adolescência dela, como a transfobia e acolhida na família.”

Gravação do longa-metragem "Aline Júnior", do paranaense Gil Baroni  — Foto: Lara Maria/Divulgação
Gravação do longa-metragem “Aline Júnior”, do paranaense Gil Baroni — Foto: Lara Maria/Divulgação

A exibição em Brasília é a quinta do filme em festivais de cinema e, segundo Baroni, por onde passa, o longa carrega um manifesto em si mesmo. “Todo corpo é político e no Brasil, e o corpo trans é mais ainda, porque carrega um histórico de violência.”

“Ter um filme em que a personagem principal é uma adolescente trans que já está acolhida, tem seus privilégios, vive na sua bolha, representando outras mulheres e homens trans, isso é um manifesto de resistência.”

“Estamos aqui para existir e resistir.”

Cena do longa-metragem "Aline Júnior", do paranaense Gil Baroni  — Foto: Beija Flor Filmes/Divulgação
Cena do longa-metragem “Aline Júnior”, do paranaense Gil Baroni — Foto: Beija Flor Filmes/Divulgação

Para Anne, protagonizar o filme e circular com ele por festivais é dar voz à história de outras mulheres e homens trans silenciados.

“Um filme que aborda coisas que vive, que pessoas trans viveram e qualquer outra pessoa também, porque fala do primeiro beijo, é convidar a todos a olhar para Alice e se igualar a ela”, disse ao G1.

Exibição do longa-metragem "Aline Júnior", do paranaense Gil Baroni, na Mostra Competitiva do 52º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro — Foto:  Mayangdi Inzaulgarat/Divulgação
Exibição do longa-metragem “Aline Júnior”, do paranaense Gil Baroni, na Mostra Competitiva do 52º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro — Foto: Mayangdi Inzaulgarat/Divulgação

“Estar no palco fazendo meu discurso, em um dos maiores festivais de cinema do país enquanto pessoa trans, vocês vão entender o quão significativo é, especialmente no país que mais nos mata.”