Aprendi em casa o que era ciência e sua importância. Ainda menina convivi com grandes cientistas brasileiros. Conheci muito cedo os dramas da falta de verbas. Vi minha mãe lutar, literalmente, em verões escaldantes para conseguir pegar o cheque do salário de meu pai, sempre atrasado. Vi a dificuldade de criar nove filhos sendo um cientista de renome.

Minha avó francesa e casada com um comerciante belga não aceitara de bom grado o casamento da filha com um “professor”. Queria que ela casasse “bem”, como se dizia. Casasse com alguém rico e famoso. Mas coube ao destino unir minha mãe, imigrante de primeira geração, com meu pai, estudante de engenharia de família de juízes, em uma festa de São João em Teresópolis.

O estudante aplicado, meu pai Joaquim da Costa Ribeiro, criou o primeiro laboratório de física experimental do Brasil no prédio da antiga FNfi na Av. Antonio Carlos quase esquina da avenida Beira Mar. O jovem Costa Ribeiro era um verdadeiro cientista. Tinha o saudável hábito de se dar com todas as pessoas independentemente da coloração política. Católico ligado ao Centro Dom Vital nunca se furtava ao debate de ideias com pessoas dos mais diferentes credos. Sabia cultivar amigos.

Vi, pela fresta da porta, inúmeras reuniões que deram origem a tantas políticas públicas em favor do desenvolvimento da ciência. Joaquim da Costa Ribeiro pertenceu à geração que fundou o CNPq, sendo o seu primeiro diretor científico, o CBPF, a Capes, a CNEN e ainda trabalhou com colegas do mundo todo, na ONU, pela criação da Agência Internacional de Energia Atômica. Dos anos 1940 até os anos 1960 quando, infelizmente faleceu, foi um ardente defensor da democracia e da ciência brasileiras. Esta geração de pesquisadores impactada com as consequências da Segunda Grande Guerra teve participação crucial nas esferas nacionais e internacionais pelo uso pacífico da energia atômica.

Meu pai não ficou rico, ao contrário, dependia do salário de professor universitário, que na época não tinha a segurança da dedicação exclusiva como hoje e por isso dava aulas de física no ensino médio em muitos colégios. No entanto, tornou-se uma referência fundamental no trabalho de construção das instituições de fomento à ciência no Brasil.

Nunca vi essas agências de fomento à ciência como algo dado, natural. Sempre soube que sua história foi feita de muito suor e muita diplomacia. Era preciso unir pessoas e também aparar arestas de todos os tipos. No CNPq, por exemplo, o papel de militares foi essencial para fortalecer a instituição nascente que teve como seu primeiro presidente, um almirante, o químico Álvaro Alberto.

Embora Udenistas e católicos Costa Ribeiro e Álvaro Alberto receberam no CNPq nos anos 1950 o presidente Getúlio Vargas em um esforço para conseguir fundos para a pesquisa em física. A foto mostra Getúlio reunido com a diretoria do CNPq. A ideia de que era preciso fundar a ciência no Brasil e criar um conjunto de instituições que fomentassem as pesquisas e apoiassem os pesquisadores norteou os cientistas dos anos 1940 e 1950 no País.

Ao longo dos últimos sessenta anos estas instituições se fortaleceram, mas isso não significa que estejam a salvo porque como diz o antropólogo Marshall Sahlins, as estruturas correm risco. Isso significa que será preciso muita diplomacia e muito esforço para neste momento de crise internacional e nacional manter viva a chama que fazia vibrar os cientistas que criaram, em meio a muitas outras crises, o sistema brasileiro de apoio à ciência e tecnologia. Um presidente sozinho, mesmo com toda a truculência que o caracteriza, não será capaz de colocar por terra as conquistas dos nossos fundadores.

Oxalá tenhamos força para seguir adiante tomando como exemplo os que antes de nós colocaram as pedras fundacionais de um sistema que vige até hoje merecendo ser repensado, porém sempre protegido.