No final de 2018, filósofo conservador britânico foi mais uma vítima do assassinato de reputações.

Em foto de arquivo de novembro de 2016, filósofo Roger Scruton foi condecorado pelos serviços nas áreas de filosofia, ensino e educação pública em Londres — Foto: John Stillwell/PA via AP, File
Em foto de arquivo de novembro de 2016, filósofo Roger Scruton foi condecorado pelos serviços nas áreas de filosofia, ensino e educação pública em Londres — Foto: John Stillwell/PA via AP, File

O noticiário atribuiu a um câncer diagnosticado há seis meses a segunda morte do filósofo britânico Roger Scruton, aos 75 anos, no último domingo. Mas sua primeira morte, há pouco mais de dois anos, teve outra causa: o assassinato de reputações promovido por seus adversários políticos, por parte da mídia e por uma turba raivosa nas redes sociais. Autor de mais de 40 livros, muitos deles traduzidos no Brasil, e reconhecido como uma das principais referências contemporâneas do pensamento conservador, Scruton foi covardemente atacado massacrado pelo establishment politicamente correto. Que ele tenha adoecido gravemente depois desse episódio de ódio orquestrado e execução sumária pode ter sido apenas uma coincidência, mas quem pode garantir que sua segunda morte não foi uma decorrência da primeira?

Scruton era membro da Royal Society of Literature, condecorado com a medalha da Ordem do Império Britânico, professor nas universidades de Londres e e Buckingham. Para qualquer pessoa intelectualmente honesta e ideologicamente desarmada, basta assistir a algumas das entrevistas e conferências de Scruton disponíveis no Youtube para constatar sua elegância e sua educação extremas: sempre conciliador, avesso a ódios, interessava-se exclusivamente pela discussão de ideias – e tinha o costume raro de procurar boas intenções mesmo nos ataques dos oponentes mais intolerantes e ressentidos. Seu conhecimento enciclopédico se espraiava por diferentes áreas, da estética à filosofia, da ciência política à ecologia, da religião à música, e em todas elas fez contribuições brilhantes.

Pois bem: no final de 2018 foi criado um conselho interministerial para avaliar projetos de casas populares financiadas pelo governo, intitulado “Building Better, Building Beautiful”. Autor de livros premiados sobre arquitetura, dificilmente haveria nome mais qualificado para comandar o conselho que o de Scruton, que seria responsável pela elaboração dos planos que serviriam como “base para a construção de novos empreendimentos habitacionais, respeitando aspectos estéticos e as necessidades específicas de cada localidade”. Mas sua indicação para o cargo (aliás, não-remunerado) foi o pretexto que se esperava para uma campanha sórdida e um linchamento público como raras vezes se viu, de tal forma eficiente que a primeira-ministra Theresa May não resistiu à pressão e demitiu o pensador.

Vivemos em um mundo no qual a competência, o mérito e o trabalho de toda uma vida de nada valem: toda e qualquer pessoa que não pertence a determinado campo político deve ser calada e humilhada. Minutos após a indicação, uma matilha de covardes “do bem” já se articulava para acusar o mais tolerante dos intelectuais de islamofobia e antissemitismo. Uma tempestade de injúrias nas redes sociais – inclusive de parlamentares do Partido Trabalhista e de jornalistas “progressistas” – se baseava em frases pinçadas e fora de contexto – como as críticas “inaceitáveis” que Scruton fez a George Soros, por acaso judeu, em uma palestra de 2012 em Budapest, ou declarações de apoio a Viktor Orbán, primeiro-ministro húngaro, ou sua análise das consequências da imigração de muçulmanos para a Europa, esta feita em uma entrevista à revista “The New Statesman”.

O assassinato de reputações, prática que vem se repetindo com uma frequência assustadora também no Brasil, parte da premissa de que todos aqueles que não pensam de determinada maneira, supostamente progressista, não são interlocutores com quem dialogar, mas adversários a abater. E, para alcançar esse objetivo, aqueles que se julgam detentores do monopólio da virtude não hesitam em mentir e caluniar de forma truculenta, fazendo uso de um repertório previsível de acusações de homofobia, racismo, misoginia etc. Decência é um conceito ignorado por quem participa da máquina de moer reputações. Quando vem o desmentido, o mal já está feito: em julho de 2019, aliás, Theresa May convidou Scruton a voltar ao conselho, do qual o afastara com base em “falsas alegações”.

Em abril de 2019, Scruton alertou para a gravidade desse processo: intelectuais de direita estavam e continuam sendo intimidados, demonizados, silenciados e excluídos do debate público em função de “crimes de opinião”. Existem nomes para isso: perseguição, patrulha ideológica, caça às bruxas. Em setembro, já doente, ele voltou a falar sobre o tema à revista alemã “Document”, em uma matéria com o título: “A turba acusa, julga e condena”. Por fim, em artigo publicado na revista “The Spectator”, Toby Young lembrou uma declaração do filósofo que resume a situação que vivemos hoje: “Uma vez identificado como sendo de direita, você está além do limite da argumentação. Suas opiniões são irrelevantes, seu caráter desacreditado, sua presença no mundo um erro. Você não é um oponente com quem debater, mas uma doença a ser evitada. Esta tem sido a minha experiência”.