Disco apresenta inédito repertório feminista das artistas nas vozes de cantoras como Alcione, Daniela Mercury, Elba Ramalho, Joyce Moreno, Mart'nália, Mônica Salmaso, Simone e Teresa Cristina.

Assunto recorrente no noticiário do Brasil, a assustadora escalada de violência contra a mulher – traduzida no número crescente de agressões, estupros e assassinatos – faz do álbum Eu sou mulher, eu sou feliz um manifesto político, tão urgente quanto necessário para alertar para essa situação intolerável.

A configuração feminina do elenco do disco potencializa o grito de alerta dado com afeto e determinação por Ana Costa e Zélia Duncan, mentoras do projeto do disco que será lançado nesta sexta-feira, 29 de novembro, inclusive no formato de CD. Parceiras, Ana e Zélia são as compositoras de 16 músicas que peitam o opressor patriarcado que ainda domina o mundo, em que pesem as progressivas conquistas feministas.

Um elenco heterogêneo e inteiramente feminino – formado por Alcione, Áurea Martins, Cida Moreira, Daniela Mercury, Elba Ramalho, Fabiana Cozza, Fernanda Takai, Isabella Taviani, Joyce Moreno, Júlia Vargas, Leila Pinheiro, Lucina, Maíra Freitas, Marina Iris, Mart’nália, Mônica Salmaso, Nath Rodrigues, Slam das Minas RJ, Simone e Teresa Cristina, além das próprias Ana e Zélia – dá voz a uma escrita em que as compositoras se valem da poesia para reafirmar o orgulho feminino entre defesas dos direitos inalienáveis da mulher, única donatária da própria vida, do próprio corpo e dos próprios desejos.

O manifesto feminista é feito na cadência dominante do samba, ritmo que identifica mais Ana Costa do que Zélia Duncan no imaginário nacional, com arranjos de Bia Paes Leme, produtora musical do disco editado pela gravadora Biscoito Fino.

Capa do álbum 'Eu sou mulher, eu sou feliz', de Ana Costa e Zélia Duncan — Foto: Arte de Flávia Pedras Soares
Capa do álbum ‘Eu sou mulher, eu sou feliz’, de Ana Costa e Zélia Duncan — Foto: Arte de Flávia Pedras Soares

O elenco de bambas valoriza o repertório. Alcione entorta o quadradismo de Essa mulher, belo samba que narra o cotidiano duro de mulher negra e pobre da favela. Apoiada na manemolência do sotaque baiano, Simone acentua a alegria de ser mulher no samba-título Eu sou mulher, eu sou feliz.

Com a habitual bossa, Joyce Moreno surfa na onda do telecoteco que sacode o samba Deixa comigo. Fabiana Cozza destila orgulho da negritude do corpo feminino ao cantar O milagre como se evocasse divindades com a voz combinada com elegante mix de percussão e violões (o de aço de Webster Santos e o de nylon de Pedro Franco).

Daniela Mercury também vai na fonte afro-brasileira para cantar Sou nascente no embalo das percussões de Lan Lanh e Thiago da Serrinha. Fiel ao próprio (requintado) universo musical, Leila Pinheiro prega a resiliência de Lida do amor em arranjo que harmoniza o piano de Delia Fischer com a percussão de Pretinho da Serrinha, sobressalente no toque da cuíca que ronca na gravação em sintonia com o discurso.

Com o canto maturado, Áurea Martins enobrece o poético inventário existencial do samba-canção Brilham ao escurecer. Isabella Taviani roda Saias e cor com força guerreira.

Ana Costa e Zélia Duncan são as compositoras das 16 músicas do álbum conceitual 'Eu sou mulher, eu sou feliz' — Foto: Jorge Bispo / Divulgação
Ana Costa e Zélia Duncan são as compositoras das 16 músicas do álbum conceitual ‘Eu sou mulher, eu sou feliz’ — Foto: Jorge Bispo / Divulgação

Fora da roda do samba, a voz de Elba Ramalho acalenta o lamento sertanejo de Sou a lua do sertão, faixa iluminada pelo toque do bandolim de Pedro Franco. E as próprias Ana e Zélia combinam vozes com Bia Paes Leme no jogral de Abertura, tema que introduz o disco com textos de Gênesis e Letícia Britto, poetas do coletivo Slam das Minas do Rio.

Conceitual, o álbum Eu sou mulher, eu sou feliz gira em torno do mesmo assunto sem soar repetitivo por abordar as questões femininas sob vários primas poéticos e com diferentes estilos de canto.

A poesia de Sabemos ver se ajusta ao canto emotivo de Cida Moreira em fina sintonia sublinhada pelo toque lírico do violoncelo de Maria Clara Valle. Se Lucina se afina com Júlia Vargas nas quebradas de Entre olhos, como se estivesse cantando com a parceira Luhli (1945 – 2018), Mart’nália ginga com a voz e o piano da mana Maíra Freitas para dar a decisão no samba Antes só, cuja letra versa com leveza sobre o peso do trabalho doméstico confiado a mulher na divisão de tarefas da sociedade patriarcal.

Também há bossa no dueto de Fernanda Takai com Nath Rodrigues em Voltei pra mim, faixa que evoca vanguardas paulistas. Já Marina Iris e Teresa Cristina põem o bloco na rua para propagar Não é não, samba já apresentado no Carnaval carioca deste ano de 2019. “Estamos sãs, irmãs, estamos fortes / Cuidaremos das nossas vidas até a beira da nossa morte”, avisam Marina e Teresa, pondo ordem no cordão.

No arremate deste feliz álbum-manifesto que jamais perde o pique da música e da poesia das letras (algumas incisivas, mas nunca panfletárias), Mônica Salmaso evidencia com precisão, em canção camerística conduzida pelo toque do piano de Delia Fischer, a delicadeza de Nascer mulher, algo tão grande que “nada no céu / nem nada no chão sabe explicar”. (Cotação: * * * * *)

Ana Costa, Fabiana Cozza, Bia Paes Leme e Zélia Duncan na gravação de 'O milagre', música confiada a Fabiana Cozza — Foto: Reprodução / Instagram Fabiana Cozza
Ana Costa, Fabiana Cozza, Bia Paes Leme e Zélia Duncan na gravação de ‘O milagre’, música confiada a Fabiana Cozza — Foto: Reprodução / Instagram Fabiana Cozza