É injusto ignorar a real tentativa de renovação articulada pelo Capital Inicial no álbum Sonora, cuja edição em CD chega ao mercado fonográfico pela gravadora Sony Music a partir de hoje, 7 de dezembro, após série de singles apresentados paulatinamente desde maio deste ano de 2018.

Somente por ter confiado a produção do disco a Lucas Silveira, mentor da banda Fresno, o grupo brasiliense já expõe a vontade de esboçar (alguma) mudança no som.

Se o Capital Inicial acaba “parado de volta no mesmo lugar”, para subverter o sentido de verso da letra da música Atenção (Dinho Ouro Preto, Alvin L e Lucas Silveira), é mais pela força da natureza pop da própria banda e do repertório inédito composto pelo vocalista Dinho Ouro Preto com o habitual parceiro Alvin L e com adesões eventuais de Flávio Lemos, Kiko Zambianchi, Lucas Silveira e Thiago Castanho.

Capa da edição em CD, em formato 'digipack', do álbum 'Sonora', do grupo Capital Inicial — Foto: Ilustração de João Gabriel Jack
Capa da edição em CD, em formato ‘digipack’, do álbum ‘Sonora’, do grupo Capital Inicial — Foto: Ilustração de João Gabriel Jack

Formado por Dinho Ouro Preto (voz), Fê Lemos (bateria), Flávio Lemos (baixo) e Yves Passarell (guitarra), o Capital Inicial é grupo vocacionado para as arenas por conta do rock de cepa pop feito e tocado pelos músicos. Tudo vai mudar (Dinho Ouro Preto, Alvin L e Kiko Zambianchi) é rock que exemplifica bem essa natureza pop, às vezes mais explícita, às vezes mais disfarçada em aura pretensamente punk.

A propósito, às vezes, como em Tempestade (Dinho Ouro Preto, Alvin L e Thiago Castanho), o Capital faz simulacro do punk rock que Fê Lemos e Flávio Lemos tocavam na Brasília (DF) do início da década de 1980.

Rock gravado pelo Capital Inicial com o grupo CPM 22 e tocado com rapidez que justifica o título da composição de Dinho Ouro Preto e Alvin L, Velocidade mostra que, quase aos 40 anos de vida, o grupo insiste na juventude, para o bem e para o mal.

Capital Inicial se junta com as bandas Far From Alaska, Scalene e CPM 22 no álbum 'Sonora' — Foto: Divulgação / Sony Music
Capital Inicial se junta com as bandas Far From Alaska, Scalene e CPM 22 no álbum ‘Sonora’ — Foto: Divulgação / Sony Music

“Não me deixe ficar pra trás”, implora Dinho Ouro Preto no refrão repetido sob o peso da batida de Invisível (Dinho Ouro Preto e Alvin L, Emmily Barreto e Thiago Castanho).

Rock encorpado com o toque heavy da banda potiguar Far From Alaska, Invisível se destaca no repertório autoral do álbum Sonora ao lado de Velocidade e da obra-prima do disco, Seja o céu (Dinho Ouro Preto, Alvin L e Thiago Castanho), flash urbano de inquietude, lirismo romântico e refrão aliciante.

Entre baladas mais ou menos sedutoras como Só eu sei (Dinho Ouro Preto, Alvin L e Thiago Castanho) e Nada vai te machucar (Dinho Ouro Preto e Alvin L), o Capital Inicial é o que pode ser. E são poucas as bandas de rock que conseguem chegar perto das quatro décadas de vida com a agenda cheia de shows feitos em grandes espaços.

Rock que abre o álbum Sonora com o reforço do toque da conterrânea banda brasiliense Scalene, Parado no ar (Dinho Ouro Preto, Alvin L e Flávio Lemos) talvez seja, das 11 músicas do disco, a que melhor exponha o movimento sutil esboçado pelo Capital Inicial (mais de timbragem sonora do que de postura) neste bom álbum produzido por Lucas Silveira, parceiro e convidado do rock Universo paralelo.

“Não me trate mal / Como alguém que o tempo levou / Tão normais distantes / Nada mais nos move / Tanto faz estranhos / Tão iguais”, pede Dinho Ouro Preto em Não me olhe assim (Dinho Ouro Preto, Alvin L e Lucas Silveira). O recado está dado. (Cotação: * * * 1/2)