Propagandas dos cobertores Parahyba, da Parmalat e da poupança Bamerindus tiveram jingles marcantes — Foto: Reprodução
Propagandas dos cobertores Parahyba, da Parmalat e da poupança Bamerindus tiveram jingles marcantes — Foto: Reprodução

Como os jingles se entranharam pelo pop brasileiro? Eles deveriam ser músicas criadas apenas para vender produtos, mas estão na memória afetiva de todo mundo que vê TV e ouve rádio.

Um exemplo dessas canções versa sobre a combinação pipoca e guaraná. O jingle é de uma campanha exibida em 1991, que voltou em nova versão no fim de maio, na voz de Manu Gavassi.

A cantora e ex-BBB não participou da criação do novo arranjo. “Eu só escolhi o tom que eu me sentia mais confortável, mudei um pouco o tom original. E gravei tudo em casa, o comercial foi gravado todo em casa, com câmera de celular”, diz ela ao G1.

Nascida em 1993, Manu não se lembrava da original. “Eu lembrava das pessoas brincando, cantando. Mas não era da minha geração, né? Acho que afetou mais a minha família. Meus pais não acreditaram quando eu contei pra eles: ‘Meu Deus, essa música foi icônica’.”

Pipoca, pizza e mamíferos fofinhos

Manu Gavassi na nova propaganda com a música 'Pipoca e Guaraná' — Foto: Divulgação
Manu Gavassi na nova propaganda com a música ‘Pipoca e Guaraná’ — Foto: Divulgação

Sérgio Campanelli é sócio do MCR, estúdio paulista que fez vários jingles clássicos, inclusive o regravado por Manu. Ele falou ao G1 sobre os segredos de composições como essa.

“Se você analisar esse jingle, do ‘Pipoca e Guaraná’, ele é um rock, um rockinho balada tradicional. Mas ele pegou na veia, porque tem todas as características que as palavras pipocam, entendeu?”, explica Campanelli. “Por exemplo: ‘Pipoca na panela começa a arrebentar, pipoquinha com sal que sede que dá’. Isso é o diferencial desse jingle.”

Além das propagandas do guaraná, ele cita versos como “O elefante é fã” e “O búfalo falou que é bom”, da campanha de uma marca de leite com crianças vestidas como mamíferos fofinhos.

“As palavras se encaixam nas vogais e na métrica. Aí é que está o segredo, pipocar a palavra. Colocar as vogais e a sonoridade na métrica. Nada é forçado… Isso é fruto de uma ideia sonora, letra e música”, resume o compositor e produtor.

Os jingles citados por Campanelli têm um estilo parecido. São todos feitos com sílabas fortes que grudaram na cabeça de quem cresceu nos anos 90.

Sérgio Campanelli é sócio do MCR, estúdio que fez vários jingles de sucesso — Foto: Divulgação/MCR
Sérgio Campanelli é sócio do MCR, estúdio que fez vários jingles de sucesso — Foto: Divulgação/MCR

Jingles mais recentes

Quem também produz jingles é Wilson Simoninha. O cantor, filho de Wilson Simonal, se divide entre a carreira solo, o show Baile do Simonal, com o irmão Max de Castro, e uma produtora.

A S de Samba produz canções para o mercado publicitário desde 1998. A empresa também tem outro fundador cantor filho de cantor, o Jair Oliveira, filho do Jair Rodrigues. Para Simoninha, a arte de criar jingles mudou muito de 10 anos pra cá:

“Antigamente, o jingle era uma coisa muito específica e facilmente identificável como um jingle. Com passar dos anos, a coisa da música ganhou uma força muito grande. Não tem que se parecer com jingle, tem que se parecer com uma música.”

Um dos sucessos publicitários da produtora foi “Mostra sua força Brasil”, música da campanha de um banco, lançada na Copa de 2014. “A canção acabou ganhando também uma força, as pessoas cantavam, se emocionavam, foi muito além do que se podia imaginar.”

“Eu escutei de pessoas no banco falando que foi a primeira vez na história do banco que as pessoas ligavam para agradecer, para falar coisa boas, bonitas. Ninguém liga pro banco para falar uma coisa bonita, né?”, conta Simoninha, rindo.

Simoninha — Foto: Chrys Galante / Divulgação
Simoninha — Foto: Chrys Galante / Divulgação

História dos jingles

Lançado em 2017, o livro “Jingle é a Alma do Negócio – A história e as histórias das músicas de propaganda e seus criadores” reconta com detalhes como foram criados alguns dos maiores hits publicitários do Brasil.

Fábio Barbosa Dias, professor da Universidade do Oeste do Paraná, é o autor. E ele tem experiência na criação e na pesquisa de jingles.

Dias conta que houve um “drama” já no início dessa história, porque o rádio chegou ao Brasil no início dos anos 20, mas as inserções comerciais não eram permitidas. A autorização para fazer isso só veio em 1932, no governo de Getúlio Vargas.

Um personagem importante desse início é Ademar Casé, o avô de Regina Casé. Ele criou um programa na Rádio Phillips que era um sucesso, o “Programa Casé”.

Casé sacou que anunciantes e ouvintes gostavam de músicas exaltando os produtos. Ele convocou um dos locutores, Antônio Nássara, para fazer jingles como o do Pão Bragança.

Nomes como Carmen Miranda, Noel Rosa, Sílvio Caldas, Francisco Alves, Noel Rosa e Lamartine Babo se dedicaram aos jingles.

Ademar Casé e a neta Regina Casé em reportagem do 'Vídeo Show' — Foto: Reprodução/TV Globo
Ademar Casé e a neta Regina Casé em reportagem do ‘Vídeo Show’ — Foto: Reprodução/TV Globo

“O envolvimento de grandes nomes da música brasileira não tinha inicialmente uma preocupação artística maior. Esse trabalho acabou ganhando importância posterior por casa da qualidade final das músicas”, explica Dias.

“Na época, eles só queriam ganhar um dinheirinho que a música normalmente não dava. O jingle acabou sendo um caminho natural para músicos ganharem bem mais do que com shows e gravação.”

‘Guerra’ cervejeira

Com a força desses compositores e cantores, os jingles viraram uma mania no Brasil. Uma música que documenta bem isso é o primeiro jingle brasileiro que virou hit de verdade. Foi também o primeiro a ser gravado em disco.

No carnaval de 1935, aconteceu uma “guerra” entre duas marcas de cerveja. O publicitário Manuel Bastos Tigre chamou Ary Barroso para compor uma música para a Brahma e quem cantou foi o Orlando Silva.

Outro marco dessa era de ouro foi o jingle do Detefon, remédio contra inseto, de 1945. E, assim, foram surgindo grandes estúdios que faziam tabelinhas com as agências de publicidade para criar músicas que fizeram história.

Remédios, cobertores, bancos…

Nos anos 40, Waldemar Galvão, locutor da Rádio Nacional do Rio, criou dois jingles que até hoje são lembrados. Os dois são para remédios: o do Melhoral e o das Pílulas de Vida do Dr. Ross.

O jingle dos Cobertores Parahyba nos levava direto para o comecinho da TV no Brasil, na primeira metade dos anos 50. Ele surgiu como uma vinheta da TV Tupi, com o mascote da emissora indo dormir, com o cobertorzinho dele.

Mas daí essa tal vinheta virou a propaganda dos cobertura Parahyba, com arranjo de Mario Fanucchi, diretor da emissora, e do maestro Erlon Chaves.

Boneco de neve das Casas Pernambucanas na década de 60 e em 2019 — Foto: Reprodução
Boneco de neve das Casas Pernambucanas na década de 60 e em 2019 — Foto: Reprodução

Outro hit sobre sentir frio foi a trilha do comercial das Casas Pernambucanas, escrita por chamado Heitor Carillo. Anos depois, ele acabaria virando diretor artístico do Silvio Santos, criando vários dos jingles dos programas do apresentador e empresário.

O jingle das Pernambucanas foi produzido em 1962. Começou sendo tocado só nas rádios, mas virou propaganda de TV. Assim como a dos cobertores Parahyba, tinha um desenho fofo, com um boneco de neve sendo esmagado. Ele se repetiu em outras décadas na televisão.

A música tema do Banco Nacional foi criada em 1971 e virou tema de Natal do banco, com autoria de Edson Borges de Abrantes por encomenda do publicitário Lula Vieira. Os comerciais natalinos tinham um maestro interpretado por Mauro Gonçalves, o famoso Zacarias.

Outro jingle clássico era o refrão “o tempo passa, o tempo voa”. Ele marcou o começo dos anos 90, mas surgiu nos 70. Foi feito para o rádio e depois foi parar na TV. A música foi retomada para tentar recuperar a confiança dos clientes na poupança. E deu muito certo.