Atriz disse que se sentiu humilhada com o modo como cena de estupro foi filmada. Diretor italiano morreu nesta segunda-feira (26) em Roma.

A cena destruiu a vida de uma atriz e ofuscou a filmografia de Bernardo Bertolucci, morto nesa segunda-feira (26). Antes do movimento #Metoo e do caso Weinstein, “Último tango em Paris” (1972) e sua cena forte de sodomia se tornaram um símbolo da violência sexual no cinema.

No filme do diretor italiano, Maria Schneider, com 19 anos no início das filmagens, vive uma tórrida paixão com um viúvo americano de passagem por Paris, interpretado por Marlon Brando. O ator americano de “Uma rua chamada pecado” seria indicado ao Oscar por esse papel.

Eles decidem não saber nada um do outro, nem mesmo o nome. Esse encontro ao mesmo tempo duro e mórbido atinge seu ápice em uma cena de sexo não consensual, com um tablete de manteiga na falta de lubrificante.

Embora tenha sido simulada, essa cena de estupro garante a reputação do filme, mas marcaria para sempre a jovem atriz, como conta sua prima, a jornalista Vanessa Schneider, em “Tu t’appelais Maria Schneider”, livro lançado este ano.

Segundo a atriz, que atuaria em mais de 50 filmes, Brando e Bertolucci não tinham alertado sobre o uso da manteiga. Ao comentar mais uma vez esta cena, em entrevista ao trabloide “Daily Mail” em 2007, a atriz diz que suas “lágrimas eram verdadeiras” no filme.

“Eu me senti humilhada e, para ser sincera, tive um pouco a impressão de ser violentada, por Marlon e Bertolucci. No fim da cena, Marlon não veio me consolar, ou se desculpar. Felizmente, uma gravação foi suficiente”, disse Maria Schneider.

‘Jovem demais’

Suas palavras foram reproduzidas pela imprensa, que preferiu dar voz ao diretor em detrimento da atriz, falecida em fevereiro de 2011. Ao saber de sua morte, Bertolucci disse que “teria querido lhe pedir perdão”.

“Maria me acusava de ter roubado sua juventude e, somente hoje, eu me pergunto se isso em parte não era verdade. Na verdade, ela era jovem demais para poder segurar o impacto que o imprevisível e brutal sucesso do filme teve”, disse o diretor.

Marlon Brando e Maria Schneider em 'O último tango em Paris'  — Foto: Divulgação
Marlon Brando e Maria Schneider em ‘O último tango em Paris’ — Foto: Divulgação

Em dezembro de 2016, a polêmica voltou: um vídeo de 2013 ressurgiu nas redes sociais e chocou Hollywood. “A sequência da manteiga é uma ideia que eu tive com Marlon na véspera da filmagem. Eu queria que Maria reagisse, que ela fosse humilhada”, conta Bertolucci.

“Eu não queria que ela interpretasse a raiva, eu queria que ela sentisse raiva e humilhação”, completou.

“A todos que gostaram do filme, vocês estão vendo uma jovem de 19 anos sendo violentada por um homem de 48 anos. O diretor planejou a agressão. Isso me dá nojo”, escreveu a atriz Jessica Chastain, muito envolvida na causa das mulheres e no movimento Time’s up.

Nos Estados Unidos, a polêmica ganhou corpo, menos de um ano antes do caso Weinstein e das revelações sobre as agressões sexuais sofridos por várias atrizes.

Na época, o diretor italiano se pronunciou mais uma vez, considerando “desoladora” a ingenuidade daqueles que não sabem que “o sexo é (quase) sempre simulado no cinema”.