Versos de Renato Russo e Raul Seixas, série espanhola 'El Ministerio del Tiempo', filme de 1972 'Independência ou morte' e outras referências culturais foram feitas no discurso.

O discurso de posse de Ernesto Araújo, novo Ministro das Relações Exteriores do governo Jair Bolsonaro (PSL), citou várias músicas, escritores, filmes, séries e outras referências da cultura pop nesta quarta-feira (2). Veja a lista:

“El Ministerio del Tiempo” – A série de televisão produzida pela emissora espanhola TVE já teve três temporadas, entre 2015 e 2017, e ainda tem mais uma confirmada para este ano. Há dois anos, tem distribuição mundial pela Netflix. É uma “ficção histórica”: governantes espanhóis de diversas épocas viajam no tempo para evitar que a história do país seja modificada por aventureiros.

Contexto: Ele recomendou a série durante o discurso e completou: “Eu diria que o Itamarty, em certo sentido, não é só o Ministério das Relações Exteriores, mas também o Ministério do Tempo. Como talvez nenhuma outra instituição no Brasil, nós temos a responsabilidade de proteger e regar este tronco histórico multisecular por onde corre a seiva da nacionalidade”.

“Independência ou morte” – O filme de 1972, dirigido por Carlos Coimbra, reencena a independência do Brasil de Portugal. Tarcísio Meira é Dom Pedro 1º e Glória Menezes é a Marquesa de Santos.

Contexto: Ernesto falava sobre memória da História do Brasil e de seus heróis, e disse que assistiu o filme aos cinco anos “maravilhado”. Ele também falou da emoção de ver o quadro da coração de Dom Pedro 1º e o do grito do Ipiranga no prédio do Itamaraty.

Renato Russo – Foi citado o verso “É só o amor que conhece o que é verdade”, da música “Monte castelo” de 1989. O verso é inspirado no capitulo 13 do livro bíblico Coríntios.

Contexto: Ele falava sobre o conceito de “verdade”. “Para explicar isso eu queria apelar para um brasiliense ilustre, o Renato Russo: ‘É só o amor que conhece a verdade”, disse Ernesto. “É só o amor que explica o Brasil”, ele completou.

Raul Seixas – Enesto falou do verso “Eu é que não me sento no trono de um apartamento / Com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar”. Ele está na música “Ouro de tolo”, de 1973.

Contexto:“Não vamos ficar sentados no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar. Vamos fazer algo pelas nossas vidas e pelo nosso país”, disse Ernesto Araújo.

Raul Seixas — Foto: Globo/Divulgação
Raul Seixas — Foto: Globo/Divulgação

‘Direito de Nascer’ – Enesto citou “Direito de nascer”. A telenovela teve sua primeira produção em 1964, pela TV Tupi (depois retornaria em 1978 e 2001). A história se passa em Havana, Cuba, no início do século 20. Uma mãe solteira (Natália TImberg na primeira montagem, Eva Vilma na segunda) vive o preconceito, e o filho acaba sendo criado por outra mulher.

Contexto: Ernesto falou que o Itamarty vai defender “os direitos básicos da humanidade”. “O principal dos quais, se me permitem usar o título de uma novela dos anos 60, ‘O direito de nascer'”.

Olavo de Carvalho – O minsitro citou o escritor que é chamado de “guru do Bolsonaro”. O presidente e seus apoiadores costumam citar as ideias de Olavo, e ele influenciou a indicação de Ernesto e de Ricardo Vélez Rodríguez (Educação).

Contexto: Ernesto fez elogios a Olavo de Carvalho (“um homem que, após o presidente Jair Bolsonaro, talvez seja o grande responsável pelo que o Brasil está vivendo”) e lembrou uma narração de um trecho de “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes, em analogia ao reconhecimento do Brasil de sua identidade nacional e de suas potencialidades.

 

Entre outras citações culturais, ele falou do escritor francês Marcel Proust (“Nossos sentimentos vão se atrofiando por medo de sofrer”, dizendo que a política externa brasileira se atrofiou por medo de ser criticada).

Ele também citou frases do português Fernando Pessoa: “O poeta superior diz o que sente. O poeta médio diz o que decide sentir. O poeta inferior diz o que acha que deve sentir.”Ernesto comparou poesia e relações internacionais: “o mesmo talvez se possa dizer do diplomata e de um país na sua presença internacional. Por muito tempo o Brasil dizia o que achava que se deveria dizer”.

Ao falar sobre nacionalismo, ele também citou uma frase da brasileira Clarice Lispector. (“A nossa evidente tendência nacionalista não provém de nenuma vontade de isolamento, ela é movimento sobretudo de autoconhecimento”.)

Ele emendou a citação a Clarice Lispector com citações a veículos de imprensa estrangeiros e a escritores e músicos brasileiros: “Vamos ler menos “Foreign affairs” e mais Clarice Lispector e Cecília Meirelles. Menos “New York Times” e mais José de Alencar e Gonçalves Dias. Menos a CNN e mais Raul Seixas“, ele disse.