Gal Costa celebra Luiz Melodia ao maturar 'Juventude transviada' com Seu Jorge
Foto: Julia Rodrigues / Lab3tv

Capa do single 'Juventude transviada', de Gal Costa com Seu Jorge — Foto: Divulgação
Capa do single ‘Juventude transviada’, de Gal Costa com Seu Jorge — Foto: Divulgação

Resenha de single

Título: Juventude transviada

Artistas: Gal Costa e Seu Jorge

Compositor: Luiz Melodia

Edição: Biscoito Fino

Cotação: * * * 1/2

♪ Das quatro músicas já reveladas do álbum em que Gal Costa revisita o próprio repertório em dueto com dez cantores de diferentes estilos e gerações, Juventude transviada é a composição menos associada de imediato à voz cristalina da cantora. Até porque a música de 1975 não foi lançada por Gal.

A artista gravou o samba torto de Luiz Melodia (7 de janeiro de 1951 – 4 de agosto de 2017) no álbum Gal tropical (1979) e o regravou, após 25 anos, no CD e DVD Gal Costa ao vivo (2006) ao fazer o registro audiovisual do show Hoje (2005 / 2006).

A terceira gravação de Juventude transviada por Gal junta a artista baiana com o cantor carioca Seu Jorge em single que chega ao mercado fonográfico na sexta-feira, 27 de novembro, em edição da gravadora Biscoito Fino.

Música apresentada em 1975 na trilha sonora da novela Pecado capital (TV Globo, 1975 / 1976), meses antes de ser incluída no segundo álbum de Melodia, Maravilhas contemporâneas (1976), Juventude transviada está no disco revisionista de Gal – idealizado pelo diretor artístico Marcus Preto para celebrar os 75 anos completados pela cantora em 26 de setembro – como forma de evocar a presença emblemática de Luiz Melodia na carreira da artista.

Como está na história da música brasileira, coube a Gal – por iniciativa de Waly Salomão (1943 – 2003) – a proeza de apresentar a obra do compositor carioca ao Brasil quando deu voz a Pérola negra (Luiz Melodia, 1971) no show Fa-Tal – Gal a todo vapor (1971 / 1972). Desde então, os nomes de Gal e Melodia ficaram eternamente associados um ao outro.

O convite a Seu Jorge para reviver Juventude transviada com Gal reforça o link em gravação introduzida pela percussão de Gabriel Vaz e feita de forma remota com produção musical dividida entre Seu Jorge e Felipe Pacheco Ventura, responsável pelo arranjo de cordas.

A propósito, neste atual registro de Juventude transviada, as cordas soam proeminentes, incisivas, tirando o protagonismo do toque do violão posto por Seu Jorge com sensibilidade em estúdio da cidade de São Paulo (SP).

O dueto entre Gal e Seu Jorge resulta estranho – e a estranheza, no caso, jamais deve ser entendida como algo negativo, até pela natureza nada ortodoxa da obra de Melodia.

É a voz de Seu Jorge a primeira a ser ouvida na gravação de quase quatro minutos. De início, o canto de Jorge soa demasiadamente grave, baixo, cavernoso, como um sussurro. Aos poucos, o cantor eleva (um pouco) o tom, se aproximando do registro vocal habitual. A voz de Gal é ouvida quando a gravação se aproxima do minuto e meio.

“Cada cara representa uma mentira” é o primeiro verso de Juventude transviada ouvido na voz da cantora e, de cara, se percebe uma interpretação bem mais maturada do que a já mencionada gravação do álbum Gal tropical.

Nos dois minutos finais do single, Gal e Jorge se alternam no canto dos versos surrealistas de Melodia até a fusão virtual das vozes no verso final “Uma mulher não deve vacilar”.

Mesmo sem reeditar o pico de sedução dos duetos de Gal com Rodrigo Amarante em Avarandado (Caetano Veloso, 1967), com Zeca Veloso em Nenhuma dor (Caetano Veloso e Torquato Neto, 1967) e com Zé Ibarra em Meu bem, meu mal (Caetano Veloso, 1981), o dueto da cantora com Seu Jorge em Juventude transviada reitera o alto nível artístico do álbum comemorativo dos 75 anos de Gal Costa.