Calcado no ritmo, o disco tem inédito repertório autoral que destaca o jazz-funk 'Odisseia', tema instrumental de nove minutos.

Marcos Valle continua com a bossa de sempre. Basta ouvir Odisseia – exuberante jazz-funk instrumental de nove minutos que termina em samba, em clima de “uma odisseia no espaço” – para comprovar essa bossa que, mesmo sem ser nova, ainda cativa admiradores pelo mundo.

Odisseia é uma das nove músicas de Sempre, álbum que o cantor, compositor e músico carioca lança em 28 de junho. Sempre é álbum calcado no ritmo, bem mais forte do que as melodias desta safra autoral que contabiliza oito músicas inéditas em 11 faixas que incluem regravação de sucesso de Lulu Santos e reprise de dois temas em versões instrumentais alocadas ao fim do disco.

A sonoridade do álbum Sempre remete ao boogie da discografia de Valle nos anos 1980. Aliados às programações orquestradas por Daniel Munick, produtor do disco gravado pelo artista no primeiro semestre de 2018 entre as cidades de Rio de Janeiro (RJ) e Niterói (RJ), os teclados de Marcos Valle são os seguros fios condutores da gravação de repertório dançante.

Capa do álbum 'Sempre', de Marcos Valle — Foto: Pedro Ladeira
Capa do álbum ‘Sempre’, de Marcos Valle — Foto: Pedro Ladeira

Coproduzido pelo próprio Marcos Valle e lançado pelo selo inglês Far Out Recordings, em edição que chega ao país natal do artista pelo selo Conecta Brasil, Sempre é álbum jovem que desmente os 75 anos de Marcos Valle, dando boa resposta ao tempo.

No disco, o artista dialoga com sons e discos do passado com a consciência de que o tempo não para. “O que é novo foi chegando / É passado, não é mais / Foi ficando para trás / O que era não é mais”, reflete Valle no fluxo do tempo da música-título Sempre.

É com espírito jovial que, nessa conversa com o tempo, o artista recicla batidas de disco music no suingue funky de Olha quem está chegando – faixa arejada pelos sopros do trompete de Jessé Sadoc, do saxofone de Marcelo Martins e do trombone de Aldivas Ayres de Lima – e revisita a fase pop oitentista da própria discografia na levada ensolarada de Vou amanhã saber, outra faixa bafejada pelos sopros dos metais.

Marcos Valle lança o álbum 'Sempre' em 28 de junho — Foto: Pedro Ladeira / Divulgação
Marcos Valle lança o álbum ‘Sempre’ em 28 de junho — Foto: Pedro Ladeira / Divulgação

Nessa atmosfera convidativa à dança, Valle ambienta bem Aviso aos navegantes (1994), sucesso que jogou Lulu Santos – parceiro de Valle desde 2002 – na pista pop eletrônica da década de 1990. A música entrou no clima do disco sem perder a perfeição pop recorrente no cancioneiro de Lulu.

A exuberância instrumental do álbum Sempre é sustentada pela banda arregimentada para o disco, cujo repertório inclui eventuais músicas sem letras, caso de Distância, tema assinado por Valle em parceria com Daniel Maunick, também coautor de Alma, música reprisada no disco em versão instrumental, assim como Minha romã.

Os toques de músicos como o baixista Alex Malheiros (do Azymuth), Paulinho Guitarra e o percussionista Armando Marçal são fundamentais porque esses músicos sabem cair no suingue contemporâneo de álbum que transita pelo universo pop sem deixar de remeter à rítmica tropical do Brasil, ainda que a brasilidade esteja bem diluída nas batidas de Sempre.

O álbum Sempre soa coerente com a trajetória de Marcos Valle, artista que soube se distanciar da Bossa Nova ao longo dos anos 1960 para abrir o leque estético de obra que resiste bem ao tempo, tendo atravessado 56 verões sem perder a cara jovem. Porque Marcos Valle tem bossa. (Cotação: * * * 1/2)