Documentário de Candé Salles estreia no cinema e na TV neste mês de janeiro.

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Resenha de documentário musical

Título: Uma garota chamada Marina

Direção: Candé Salles

Produção: Letícia Monte e Lula Buarque de Hollanda

Cotação: * * 1/2

♪ Pra começar, Uma garota chamada Marina não é o documentário que ainda pode e deve ser feito sobre Marina Lima, artista que imprimiu assinatura moderna na música pop brasileira dos anos 1980 e 1990, décadas do auge artístico e comercial desta cantora, compositora e instrumentista de ascendência piauiense e de atuais 64 anos.

Mais do que um documentário sobre a trajetória de Marina, o filme do diretor Candé Salles se configura um recorte afetivo da artista em período de dez anos que vai de 2009 a 2019. Um recorte feito com o aval da própria Marina, que assina o roteiro com Candé.

Filme com sessões agendadas para 16 de janeiro no cinema e com exibição programada pelo Canal Curta! para 27 de janeiro, Uma garota chamada Marina jamais desvenda o mundo particular da artista, por mais que exponha imagens do cotidiano caseiro da protagonista, dentro do limite da liberdade consentida por Marina a Candé. Foco de uma das sequências finais do roteiro, o apego de Marina aos bichos talvez seja o dado mais revelador que salta na tela ao longo de pouco mais de uma hora.

“Os bichos são meus donos”, sentencia a artista, revelando que um dos cachorros que teve, Pedro, dormiu na cama dela por 22 anos. É nessa parte que entra em cena o gato chamado de Wesley Safadão.

Cartaz do filme 'Uma garota chamada Marina', de Candé Salles — Foto: Reprodução
Cartaz do filme ‘Uma garota chamada Marina’, de Candé Salles — Foto: Reprodução

Entrevista inédita com a cantora pauta e pontua o roteiro, mas os depoimentos são geralmente vagos. Marina, por exemplo, já foi mais específica em outras entrevistas ao discorrer sobre o problema que afetou a voz da cantora em 1996, fruto da infelicidade da artista com o abortado show Abrigo.

Em contrapartida, ao falar sobre o que a motivou a sair do Rio de Janeiro (RJ), cidade onde se criou e onde firmou a assinatura carioca de obra cosmopolita, Marina consegue justificar a ida para São Paulo (SP) como necessidade de reconstruir uma imagem já cristalizada no imaginário carioca.

A mudança gerou álbum tão inspirado quanto subestimado, Clímax (2011). A propósito, na parte inicial do roteiro, o filme Uma garota chamada Marina assusta ao dar a impressão de que se resumirá a exibir longo making of do show Clímax (2012), refinado espetáculo teatral que, infelizmente, foi logo diluído pela artista após a temporada inicial em São Paulo (SP).

Marina Lima com o cineasta Candé Salles, diretor do filme 'Uma garota chamada Marina' — Foto: Divulgação
Marina Lima com o cineasta Candé Salles, diretor do filme ‘Uma garota chamada Marina’ — Foto: Divulgação

Essa má impressão é desfeita quando começam a entrar os depoimentos do professor de filosofia Fernando Muniz e do figurinista Cao Albuquerque. As falas de ambos ajudam a compreender a importância de Marina Lima na feitura de música feminina que celebrava o prazer nos anos 1980, liberta do jugo machista imposto a cantoras e compositoras que a precederam.

Não por acaso, Marina Lima despontou em 1979, ano em que outras artistas de obras femininas, como Joyce Moreno e Fátima Guedes, também ganharam projeção como compositoras.

Com a obra básica construída em parceria com o irmão Antonio Cicero, Marina Lima expôs ao mundo uma nova maneira de ver a vida, como é sintetizado ao fim do filme. Exposição que ficou clara na biografia da cantora, Maneira de ser, editada em 2012.

Pena que o filme Uma garota chamada Marina enfoque na superfície essa maneira de ser e esse mundo tão pessoal, deixando os seguidores da cantora à espera de um próximo filme que perfile Marina Lima com a profundidade a que a artista faz jus pela trajetória singular na história da música brasileira.