A direção sonora de Davi Moraes e Pedro Baby valoriza o espetáculo estreado em São Paulo.

Qualquer tentativa de encenar musical suntuoso sobre o grupo Novos Baianos trairia a natureza anárquica deste coletivo soteropolitano herdeiro das liberdades tropicalistas.

Oficialmente em atividade desde 1969, o Novos Baianos se impôs como grupo jovial que, após um primeiro álbum mais roqueiro e psicodélico lançado nesse ano de 1969, entrou para história ao ouvir a dica do gênio João Gilberto (1931 – 2019) e injetar brasilidade em som que misturou samba, rock e choro com frescor na obra-prima Acabou chorare (1972), título fundamental da discografia brasileira.

Em cena desde 8 de novembro no Teatro Antunes Filho do Sesc Vila Mariana, na cidade de São Paulo (SP), onde fica em cartaz de quinta-feira a domingo até 15 de dezembro, o musical Novos Baianos acerta ao rejeitar qualquer traço de formalidade ao tentar expôr no palco a natureza do grupo.

Só que o excessivo despojamento – refletido sobretudo no texto escrito por Lucio Mauro Filho sem uma mínima solidez dramatúrgica – resulta em musical de espírito quase colegial, traço que dá sentido ao musical ao mesmo tempo que o desvaloriza.

O arremate pobre do texto, concluído com narração breve e superficial do destino dos integrantes do grupo após a fase áurea marcada pelo histórico álbum Acabou chorare (1972), sublinha a impressão de que, em nome desse espírito jovial impregnado no culto dos Novos Baianos, a dramaturgia foi simplesmente esquecida.

Talvez por causa disso, o espetáculo deverá agradará a parcela do público que enxerga nos musicais de teatro a oportunidade de assistir a um show-karaokê com sucessos de um ou mais artistas.

Ciente do poder aliciante de composições como A menina dança (Moraes Moreira e Luiz Galvão, 1972), o diretor Otavio Muller valoriza a entrada em cena dos hits dos Novos Baianos, em especial de Preta pretinha (Moraes Moreira e Luiz Galvão, 1972), alocada ao fim do primeiro ato em número que abarca a plateia.

Do ponto de vista da direção musical, o roteiro estruturado em dois atos é apresentado sem erros. Até porque a direção do som foi confiada aos guitarristas Davi Moraes e Pedro Baby, filhos e herdeiros musicais de Moraes Moreira e Pepeu Gomes, respectivamente.

Sem inventar moda, Davi e Pedro reproduzem a estética tropical(ista) do som dos Novos Baianos, enfatizando os toques dos violões nos arranjos cheios de frescor. O alto poder de sedução da execução da canção Acabou chorare (Moraes Moreira e Luiz Galvão, 1972) em cena atesta o acerto da direção musical.

A presença de Pepeu Gomes, vivido pelo ator Filipe Pascual, poderia ter sido mais valorizada no espetáculo, mesmo que o toque da guitarra seja amplificado em Mistério do planeta (Moraes Moreira e Luiz Galvão, 1972).

Da mesma forma, Moraes Moreira – evocado com precisão física pelo ator Felipe El – acaba sendo mais uma personagem em musical que prioriza o espírito de coletividade, sem hierarquias no elenco composto por 12 atores jovens que cantam, dançam, interpretam e tocam instrumentos.

No quesito vocal, Gustavo Pereira – a quem foi confiada a missão de dar vida a Paulinho Boca de Cantor – marca boa presença cênica ao longo do espetáculo, como fica evidenciado já no começo do primeiro ato quando Pereira cai no samba Ladeira da Praça (Luiz Galvão e Moraes Moreira, 1974).

Barbara Ferr também sobressai no elenco ao dar voz e vida a Baby Consuelo com graça e credibilidade, além de cantar com desenvoltura músicas como Tinindo trincando (Moraes Moreira e Luiz Galvão, 1972).

Ravel Andrade também merece menção na pele de Luiz Galvão, poeta letrista que deu início à pré-história dos Novos Baianos ao procurar Moraes Moreira, jovem e então desconhecido melodista. Quando salpica alguns fatos e dados biográficos sobre o grupo na narrativa fluida, aliás, o texto do musical é narrado sob o ponto de vista da memória de Galvão.

Diante da opção total e irrestrita pela espontaneidade, o diretor Otavio Muller apresenta por vezes soluções cênicas inventivas. O musical também tem caráter lúdico, exemplificado na cena em que o grupo viaja a bordo de um ácido.

Mesmo sem abrir mão dessa graça, o espetáculo aborda com a devida seriedade o enfoque dos atentados à liberdade de expressão, conectando a repressão sofrida pelos Novos Baianos ao polarizado Brasil de 2019.

Enfim, para espectadores que abrem mão da dramaturgia no teatro, o musical Novos Baianos pode resultar extremamente agradável porque, sim, há uma irreverência, uma anarquia e uma jovialidade em cena que são fiéis ao imaginário nacional construído em torno dos Novos Baianos ao longo dos últimos 50 anos. (Cotação: * * *)