Caetano Veloso e Russo Passapusso participam do disco produzido pelo trio que dá forma ao som de Iza.

Resenha de álbum

Título: Raiz

Artista: Fran

Gravadora: Blacktape

Cotação: * * * 1/2

♪ Na abertura do primeiro álbum solo de Fran, Raiz, o som proeminente da conga e do atabaque percutido pelo músico Kainan do Jêje evoca o toque ancestral mencionado na letra da música Coração tambor.

Em sintonia com a letra que também aponta um futuro, a ancestralidade é passada pelo filtro pop contemporâneo do trio de compositores e produtores – Pablo Bispo, Ruxell e Sergio Santos – que deu forma ao álbum Raiz.

Responsável pela embalagem do som de cantoras com Iza, o trio não somente produziu o disco com Fran como é parceiro do artista carioca em seis das nove músicas que compõem o repertório inédito e autoral de Raiz, inclusive a mencionada música Coração tambor.

Para quem ainda não ligou o nome à pessoa, Fran é o nome artístico adotado pelo cantor, compositor e músico Francisco Gil – neto de Gilberto Gil e filho de Preta Gil – em carreira solo iniciada com a edição de Raiz, álbum que aporta nas plataformas de áudio na sexta-feira, 10 de janeiro.

No álbum, Fran enfatiza o suingue afro-baiano que já estava embutido no som do trio Gilsons, formado por ele com o tio José Gil e o primo João Gil (Fran continua no trio, paralelamente à carreira solo). Esse batuque afro-brasileiro foi reprocessado pelos efeitos eletrônicos do trio Pablo-Ruxell-Santos, mas a raiz baiana da dinastia do artista está lá, firme, revolvida com frescor.

“Deixa chegar Xangô”, pede passagem Fran na música-título, Raiz, composta e gravada pelo artista com Russo Passapusso (voz da banda BaianaSystem) e com mix de instrumentos que harmoniza guitarra e sintetizador (a cargo de Davi Moraes) com as percussões de Kainan do Jejê.

Francisco Gil adota o nome artístico de Fran na carreira solo iniciada com o álbum 'Raiz' — Foto: Divulgação
Francisco Gil adota o nome artístico de Fran na carreira solo iniciada com o álbum ‘Raiz’ — Foto: Divulgação

Em disco em que as levadas chamam mais atenção do que as melodias, o suave samba-reggae Divino amor (Fran, Pablo Bispo, Ruxell e Sergio Santos) sobressai coeso em tom sensorial, com imagens e cheiro de Bahia na letra cujo refrão repete os versos “Oh, divino amor / Andando de mãos dadas / De Ondina até o Pelô”, cantados por Fran na companhia de Caetano Veloso.

A pimenta baiana da sensualidade romântica também tempera Denguinho (Fran, Pablo Bispo, Ruxell e Sergio Santos) e Eu mais tu, xote composto por Fran com o trio e com o rapper cearense RAPadura Xique-Chico, tendo sido gravado com a maestria da sanfona de Mestrinho.

Denguinho e Eu mais tu expõem o apelo popular do cancioneiro autoral de Fran, que assina e canta sozinho duas baladas, Eu reparo e Bateu forte, que destoam do universo rítmico e geográfico do álbum Raiz, sendo que Bateu forte evoca a alma do soul norte-americano.

Faixa gravada com a adesão de Ruxell, Leve axé (Fran, Pablo Bispo, Ruxell e Sergio Santos) reconduz o álbum Raiz à matriz rítmica, com sopro de leveza e energia positiva. No arremate, Fran se (re)encontra com Gilberto Gil no batuque sincrético de Afro-futurista, música assinada por Gil com o avô e com o trio recorrente na produção do disco.

Mote da letra que remói clichês sobre a África nos versos iniciais, o exercício sincrético da fé é professado em gravação que reitera a fina mistura rítmica vislumbrada por Gilberto Gil há 43 anos no antenado álbum Refavela (1977).

Em essência, Fran nunca precisou sair de casa para revolver a própria raiz que repagina em promissor primeiro álbum solo.