Foto: Marluci Martins / Divulgação
Foto: Marluci Martins / Divulgação

Resenha de álbum

Título: Fazendo samba

Artista: Moacyr Luz e Samba do Trabalhador

Gravadora: Biscoito Fino

Cotação: * * * * 1/2

♪ Segunda-feira é dia de prazerosa labuta para Moacyr Luz, criador em 2005 da roda carioca intitulada Samba do Trabalhador por ter sido aberta no horário do expediente, em plena tarde de segunda.

Atração que aglutina pequenas multidões de operários do samba no Clube Renascença, situado no Andaraí, bairro distante dos cartões postais da cidade do Rio de Janeiro (RJ), o Samba do Trabalhador gerou coletivo que compõe, canta e toca sob a liderança de Moacyr Luz.

Álbum lançado no alvorecer deste ano de 2020, para festejar os 15 anos da roda que deu a merecida projeção a Moacyr Luz, Fazendo samba é o quinto título da discografia assinada pelo compositor carioca com o Samba do Trabalhador. É um disco com muitas músicas inéditas que evidencia a produtiva fase de Luz como compositor.

Capa do álbum 'Fazendo samba', de Moacyr Luz e Samba do Trabalhador — Foto: Marluci Martins
Capa do álbum ‘Fazendo samba’, de Moacyr Luz e Samba do Trabalhador — Foto: Marluci Martins

Fazendo samba roça o alto nível do repertório autoral apresentado pelo artista há dois anos no álbum, Natureza e fé (2018), com que festejou seis décadas de vida. O disco Fazendo samba já apresenta na abertura (mais) uma obra-prima do compositor, Loucos de inspiração, música feita com Wanderley Monteiro em louvor ao samba.

Duas parcerias de Moacyr Luz com Xande de Pilares – Das bandas de lá e Fora de moda, ambas cantadas por Luz com Alexandre Marmita – contribuem para a renovação de repertório dos trabalhadores do samba.

Com voz viçosa, Mingo Araújo é o intérprete de Eu sou batuqueiro (Sereno e Moacyr Luz), grande samba que pisa firme no chão dos terreiros no baticum e na letra que saúda as memórias de Beth Carvalho (1946– 2019), da jongueira Vó Maria (1911 – 2015) e de Ivone Lara (1922 – 2018), dona de repertório joia rara.

Desse repertório, os trabalhadores reabrem Sorriso negro (Jorge Portela, Adilson de Barro e Jair de Carvalho, 1981) com a ilustre presença de Leci Brandão, operária militante das rodas.

Moacyr Luz e Samba do Trabalhador registram composições inéditas no álbum 'Fazendo samba' — Foto: Marluci Martins / Divulgação
Moacyr Luz e Samba do Trabalhador registram composições inéditas no álbum ‘Fazendo samba’ — Foto: Marluci Martins / Divulgação

O álbum Fazendo samba também pesca pérolas recentes. O samba Reza pra agradecer (Pretinho da Serrinha, Nego Álvaro e Vinicius Feyjão, 2016) foi lançado sem repercussão há quatro anos na voz de Pretinho e ganhou visibilidade no registro fonográfico feito por Maria Rita em 2017, sendo abordado com toda a propriedade pelo cocriador Nego Álvaro neste disco.

A cara do Brasil também é samba recente. Foi lançado por Toninho Geraes há três anos no álbum Estação Madureira (2017) em gravação feita pelo autor com a participação de Moacyr Luz, parceiro de Geraes no samba ouvido na voz de Roberta Sá em Fazendo samba.

Embebido do espírito suburbano da partida cidade do Rio de Janeiro (RJ), cujo apartheid social é assunto da letra da já mencionada composição Das bandas de lá, o álbum reverbera O ronco da cuíca (João Bosco e Aldir Blanc, 1975) em gravação eletrizante feita com Bosco e se equilibra bem no sapatinho que se movimenta no passo sincopado da música-título, Fazendo samba, parceria de Moacyr Luz com o bamba Zeca Pagodinho. O sopro do trombone de Allan Abadia bafeja o salão de gafieira em que evolui esse samba de balanço inebriante.

Samba composto e cantado por Nego Álvaro, Nas mãos de Deus é partido de alto quilate. Diante do poder divino da criação, os compositores louvam o próprio samba, reverenciado em Pra batucar (Nego Álvaro e Mingo Silva), em Quando o samba veio me buscar (Moacyr Luz e Roberto Didio) – nas vozes de Gabriel Cavalcante e do próprio Moacyr Luz – e em Segunda-feira, retrato romantizado da roda do trabalhador, esboçado na voz grave do mesmo Gabriel Cavalcante, parceiro de Roberto Didio no samba.

A roda também abre espaços no disco para o romantismo de Quem dera o tempo (Alexandre Marmita, Mingo Silva e Nego Álvaro), para a louvação a um operário esquecido do samba – Camunguelo (1947 – 2007), perfilado com a verve de Aldir Blanc em Camunga, parceria inédita do bamba das letras com Moacyr Luz – e para a melancolia lírica que sobrevoa os versos e a melodia de Canta, sabiá, parceria de Sereno com o incansável Moacyr Luz.

Quinze anos após a abertura da roda, os trabalhadores do samba mostram neste belo disco do coletivo que continuam loucos de inspiração.