Sobressalente no primeiro capítulo de 'Amor de mãe', o canto da intérprete também reverbera em 'Éramos seis'.

Encharcado de delicadeza, o canto de Maria Bethânia banhou de sentimento a paisagem árida que ambientou cena de flashback do primeiro capítulo da novela Amor de mãe, exibido pela TV Globo na noite de segunda-feira, 25 de novembro.

Enquanto Lourdes (Lucy Alves, na juventude) rumava numa carroça com quatro crianças para o Rio de Janeiro, à procura do filho recém-vendido pelo marido, a gravação de Onde estará o meu amor – feita pela cantora há 23 anos para o álbum Âmbar (1996) – foi ouvida na íntegra.

No caso, o amor de paradeiro desconhecido evocado na letra dessa bela canção de autoria de Chico César era o filho tirado dos braços da mãe.

Desde que Coração ateu (Sueli Costa, 1975) bateu com sensibilidade na sonorização das cenas de Malvina (Elizabeth Savalla) na versão original da novela Gabriela (1975), Bethânia tem sido uma força que nunca seca em trilhas sonoras de novelas.

No momento, a cantora pode ser ouvida simultaneamente em Amor de mãe e em Éramos seis. Na atual novela das 18h da TV Globo, a voz de Bethânia reverbera gravação de Lua branca (Chiquinha Gonzaga, 1912, com letra de 1929), modinha que ilumina o romantismo lírico da trama.

Coincidentemente, Onde estará o meu amor e Lua branca apresentam a voz de Bethânia em registros suaves, sem perda da emoção, destilada com requinte.

Em tons altos ou baixos, a dona do dom – assim personificada por Chico César no título de música gravada por Bethânia para o álbum Maricotinha (2001) – possui a habilidade de entrar no drama das canções.

Maria Bethânia tem a gravação de 'Onde estará o meu amor', de 1996, incluída na trilha sonora de 'Amor de mãe' — Foto: Jorge Bispo / Divulgação
Maria Bethânia tem a gravação de ‘Onde estará o meu amor’, de 1996, incluída na trilha sonora de ‘Amor de mãe’ — Foto: Jorge Bispo / Divulgação

Quando eleva o tom, a intérprete pode atingir o reino do sublime. Difícil imaginar o curso da novela Velho Chico (TV Globo, 2016) sem a voz de Bethânia em Mortal loucura (José Miguel Wisnik com versos do poeta Gregório de Matos, 2005), música que gravou para a trama.

E, louve-se, Bethânia tem gravado músicas especialmente para trilhas de novelas nos últimos anos. Em 2016, a novela A lei do amor (TV Globo) apresentou Era pra ser, então inédita canção de Adriana Calcanhotto com o qual Bethânia soprou o vento do amor para o lugar sagrado habitado pela voz da artista.

Voz que, em outras eras e tramas, já deu o Grito de alerta (Gonzaguinha, 1979) em embates conjugais da novela Água viva (TV Globo, 1980) e bafejou o prazer de desfrutar Sábado em Copacabana (Dorival Caymmi e Carlos Guinle, 1951) na abertura da novela Paraíso tropical (TV Globo, 2007).

Com essa voz que não mente, Bethânia pode tanto lapidar quanto intensificar os dramas das canções. Talvez por isso essa matéria-prima vocal tão rara e tão singular seja artigo sempre e cada vez mais necessário nas trilhas sonoras de novelas.